Ultimamente tenho lembrado muito do Mário Prata quando diz que “escrever uma tese é quase um voto de pobreza que a pessoa se autodecreta. O mundo para, o dinheiro entra apertado, os filhos são abandonados, o marido que se vire. Estou acabando a tese. Essa frase significa que a pessoa vai sair do mundo. Não por alguns dias, mas anos. Tem gente que nunca mais volta.”
Eu sou “o marido que se vire” dessa citação. Pois é, desde que nos casamos ela faz o tal doutorado. Para se ter uma ideia, nunca consegui falar a tão famosa frase “enfim sós!”, porque nunca estivemos realmente sós. Entre nós havia um objeto de estudo chamado Gustavo Barroso. Às vezes eu me perguntava se era mesmo objeto de estudo ou de desejo, pois sempre passou mais tempo com ele do que comigo. Minha sorte é que ele é um morto... não sei...entre tantas qualidades de corno, será que existe a do corno espírita????
Fato é que na nossa vida de casados não a divido apenas com o tal Gustavo Barroso. Divido-a também com alguns vivos, como orientador, co-orientador, interlocutor, leitor, ouvidor etc. Com eles ela conversa no dialeto “doutoranês”: é sic pra lá; apud pra cá; idem; ibidem... Acredito que só esses vivos serão capazes de compreender o trabalho que se desenrola em uma infinidade de páginas cheias de notas de rodapé, citações, títulos e subtítulos.
Sabe qual é a parte que me cabe nesse latifúndio? É, embora ela passe a maior parte do tempo envolvida com a escrita da tese, às vezes se lembra de mim: Romney escaneia essas imagens, por favor? Romney me leva de carro para o Museu porque estou com o laptop? Romney deixa eu ler só esse pedacinho aqui da tese para você ver se acha legal? Romney aproveita que você sai mais cedo hoje da escola e tira cópia desses textos pra mim que preciso ler para ontem? Romney pode fotografar uns documentos pra mim no arquivo? Além de marido, arrumei outra função: secretário de assuntos aleatórios da tese.
Nesse ritmo ela levanta cedo, vai pro trabalho, volta pra casa e se enfia na tese. Eu não agüento espera-la para dormir... tem vezes que ela passa noites e noites com o Gustavo Barroso. Sorte que não sou ciumento. Final de semana? Não existe. Só dá ela, o computador, o Gustavo Barroso e a tese. E eu? Ah! Teve um dia que eu falei: “Hoje ela não me escapa”. Quando nos deitamos, dei aquele cheiro gostoso no cangote, crente que estava abafando e ela... já estava dormindo. O Gustavo Barroso tinha lhe sugado todas as energias e nada sobrou pra mim a não ser seus roncos que não me deixaram dormir a noite inteira.
Assim, eu me pergunto: é possível o amor nos tempos de doutorado? Não sei, talvez... só sei que enquanto houver tese a escrever, fica difícil de a família crescer.
P.S.: No dia 21/12/2009 nós defendemos a tese. OBA!!!!
Seus textos são ótimos. Adorei!
ResponderExcluirUhauhauahauahuaa! Muito bom!!!
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